sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Um cais chamado saudade





 •
havia um porto
antes
ao alcance da vista

um ponto
onde as naus
suspendiam viagem

as velas arfavam
desenfunadas
e sonhavam

lua sobre o mar
era um sabre
aparando a água

havia um porto
antes
ao alcance do corpo

(um ponto
onde hoje atraco a saudade

mais nada)
 

      •

na exígua laje
nome em brasa

primavera exala um odor patético
do peito do mármore
: a lâmina fina de tua morte me transpassa

da pedra ignara
um cancro floresce

      •
a escrita
(como nos estudos de Leonardo)
é corpo dissecado

os músculos saltam dos traços
marcando a delicada anatomia
do rosto que a vida grafa

no desenho tosco:
o engenho do pensamento
nudez de nervos na página

[Sônia Régis]

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Mestiços




Temos asas viradas para dentro
ninguém é só bom ou ruim
pensem o que pensem
assim somos
mestiços de anjo
e demônio


[Líria Porto]










Retirado daqui

domingo, 15 de novembro de 2009

Misturado



Assista
Ao desfile de desejos
E vá derrubando-os
Um a um.
Sentindo
Que no viver
Você não quer o que
O outro quer
Não vê o que
O outro vê
Não sabe
O que o outro sabe
Não sente
O que o outro sente
E tudo volta para si.
Mas ao mesmo tempo
Tudo é espelho e labirinto
Onde você se perde
Sem saber onde termina você
E começa o outro.
E o único desejo que sobra
É o de desaparecer.

Nanda Botelho
11/09/95


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domingo, 8 de novembro de 2009

Manicômio




A loucura perdida
No espaço vazio
Do olhar vago
Sem sentido
Em fio.


Nanda Botelho
11/09/95


À Audenísia.


Escrevi essa poesia numa vista a um manicômio como estudante de psicologia. Audenísia chamou minha atenção com seu olhar perdido,como se ela estivesse viajando e só o corpo estava presente para apresentar a um grupo de estudantes o que é loucura.
Ela era estranhamente bonita em seu alheamento.




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